Saudações, leitor! Aqui está a terceira edição da nossa Revista.

Conseguimos dois feitos importantes em agosto, considerando a nossa vontade de aproximar campo, cidade e cozinha.

Em primeiro lugar, saímos um pouco do nosso universo urbano, uma fuga importante dada a ênfase da Junta Local no apoio e consolidação de uma ponte com o campo. Os pequenos produtores no campo são, em última instância, aqueles que cuidam do solo e guardiões de um conhecimento sobre a terra e a natureza sob ameaça de desaparecimento ou marginalização; os pequenos produtores rurais são a base sob a qual todos os elos seguintes na cadeia alimentar curta que propomos se sustentam. Se temos pequenos produtores que respeitam as estações, os microclimas, os solos, as água e os animais, temos comida melhor e mais humana.

Manuella Saldanha e Tomé Lavigne, do Sítio Córrego Alto, são exemplo de uma nova geração de jovens pequenos produtores rurais que foram buscar no campo, contra a corrente, um novo estilo de vida. Em sua contribuição para a Revista, eles contam um pouco sobre a experiência de revitalização de uma antiga propriedade familiar no município de Trajano de Moraes e da busca pela certificação orgânica.

Vizinho geográfico (e sanguíneo) de Manu e Tomé, Vicente Saint-Yves, do Animall, virou também vizinho deles na Revista escrevendo sobre a experiência dele como alguém que trabalha com carne animal. A evolução da agricultura é indissociável da domesticação de animais para diversos fins e, nesse sentido, a Revista continua com o pé no campo.

O artigo possui uma camada adicional de significado, pois em diversos momentos na trajetória da Junta Local vivemos coletivamente, com graus variáveis de polêmica e civilidade, o questionamento em relação ao consumo da carne – uma questão muito urbana mas não menos relevante. De um lado, a ineficiência de conversão energética da carne animal, a crueldade, a perversidade ambiental e política da indústria frigorífica (alguém no Brasil pós-Joesley duvida?) – pontos justos levantados pelo vegetarianismo e veganismo. De outro, o respeito da tradição gastronômica, a imbricação entre homem e animal no campo e a possibilidade de meios alternativos de produção muito mais respeitosos.

Aprendemos na Junta Local que existe um caminho que transcende o debate às vezes míope e certamente maniqueísta do consumir carne ou não. O debate da comida é muito mais complexo e exige uma reflexão sobre o homem, a natureza e a cultura. E se aprendemos algo de mais profundo e mais iluminador nesse tempo sobre a carne e a criação de animais, foi com produtores como Vicente Saint-Yves cozinheiro, aprendiz de açougueiro, produtor rural e feirante por trás do Animall junto com Diana Joels. Fazemos questão de publicar esse quase manifesto por acreditar que o debate sobre a carne deve ser recolocado nos eixos; colocado em termos de pequenos produtores que buscam trabalhar da melhor maneira possível com o animal, a natureza e uma indústria frigorífica atroz. Precisamos da voz de quem está no campo e de quem, como Vicente, não tem medo de dizer: “A vida pressupõe a morte. Quem já a viu de perto, e olhou nos seus olhos, sabe que pode ser rápida e serena e que o aproveitamento total do resultado de um sacrifício é a maior homenagem que podemos prestar aos bichos que criamos.”

O segundo feito desta edição foi termos produzido de ponta a ponta uma coluna de receitas, algo que há muito tempo desejávamos. Como adeptos do “campo à mesa”, da gastronomia e cozinha como elo entre o que se faz no campo e em nosso dia a dia, uma das missões da Revista é inspirar nossos leitores a se atreverem na cozinha. O feito dentro deste feito foi aliciar José Pedro Fonseca, o Zé, elusivo padeiro, cozinheiro e eminência parda por trás da CB Pane – preconizador do “atávico moderno” dentro da cena de pães de fermentação natural na cidade – e cozinheiro epônimo da popular Maison do Zé, restaurante e panificadora que prova que gastronomia se faz em qualquer lugar, até na sobreloja do Terminal Menezes Côrtes no Centro.

Convidamos (leia-se, obrigamos) Zé a fazer uma receita com o feijão vermelho de Manu e Tomé (viram só como ficou tudo amarrado?), que acabara de ser colhido. Nosso estimado cozinheiro não joga para a torcida e sua primeira reação foi torcer o nariz. No entanto, essa resistência foi o caminho para uma versão totalmente heterodoxa, do nosso sagrado feijão – que batizamos de “Feijão Herético” – com elementos familiares como cominho e coentro, mas dando uma rasteira no paladar com o acréscimo de curry e leite de coco. Uma demonstração de como se elevar o nível do trivial. E este será o formato da nossa coluna bimestral de receitas, o “Zé Come”, pois nosso cozinheiro irá “comer” a Junta.

Notícias da Junta Local
Agora, saindo da Revista e trazendo informações da Junta Local – outra função do nosso Megafone –, destacamos a “expansão” para o Oeste. Nos dias 29 e 30 de julho tivemos nossa primeira feira na Barra da Tijuca, na Cidade das Artes. Ao longo de dois dias, mais de 70 produtores por dia ocuparam o vão do edifício e muitos se estenderam nos gramados ao redor (houve até campeonato de pétanque). Além de render fotos estonteantes, foi possível sentir o calor humano dos barrenses, que receberam de braços abertos nossa comunidade. A interação fluiu nas barracas e também na Sala de Leitura, onde produtores se apresentaram em duas sessões de bate-papo e em duas mesas redondas abordando o trabalho dos pequenos produtores a partir das perspectivas do tempo e do homem, tendo como proposta ir além das formas reducionistas típicas quando o assunto é comida.

O mês de agosto começou também com uma grata surpresa, uma homenagem prestada pelo Rio Gastronomia, evento e publicação do jornal O Globo. No dia a dia, o que conta para nós é o reconhecimento do pequeno produtor e de quem participa do nosso movimento, seja como parceiro, frequentador ou consumidor, mas prêmios assim possuem sua importância, pois podemos ressignificá-los a nossa própria maneira. Em tempos de individualismo e concorrência, optamos por pontuar o coletivo e o transformativo. Comunidade de produtores e parceiros, vislumbramos a comida como ferramenta de transformação e é esse o sentido que queremos dar para a gastronomia.

Acreditamos na junção de você também, leitor da nossa Revista, que de alguma maneira se sente tocado ou representado pelas nossas palavras e imagens.

Boa leitura!

Crédito das fotos: Samuel Antonini