Texto da colaboradora Luciana Martinez

A última edição das feiras da Junta Local – o Mundo à Mesa – foi muito especial. Coisa de quatro dias, produtores de várias regiões do Brasil e de diferentes países do mundo. Eu, que não sou boba nem nada, troquei a Sacola Virtual pela real (ecológica, como não poderia deixar de ser) e fui até lá para conferir essa diversidade toda.

Só que, caros sacoleiros, a curiosidade não é do tipo que costuma pedir licença e, aqui nessa coluna, toda hora é hora de experimentar sabores e arriscar uma receita nova. Foi assim que surgiu o carinhosamente apelidado Bloody Mara, uma versão do clássico drinque, inventado em Nova York, com um toquezinho de Pará.

Sei não. O Bloody Mara para mim é uma espécie de “carimblues”. Algo como um “calipsoul”, quiçá. Uma guitarrada em forma de bebida. Não entendeu? Então deixa eu resumir de uma vez essa pororoca. Pense no Bloody Mary clássico. Agora, tire a globalizada vodca e bote algo mais regional… Nesse quesito, passeando pela feira conheci a Taberna da Amazônia, que trabalha com produtos de pequenos produtores do Amazonas, que, na pessoa de Anne, me apresentou à regionalíssima Cachaça de Jambu. Foi ela que levei pra casa e essa é minha dica para servir de base para seu Bloody Mara. Foi? Então esqueça também os molhos pimenta industrializados e vá com tudo nos jalapenõs maravilhosos da Brasil Pimentas. Para quem não conhece, a Brasil Pimentas é uma das joias raras da Junta Local. Denise, que representa nas feiras, cultiva e sabe tudo sobre pimentas. Mais do que isso, está sempre disposta a mostrar o quão elas são fraquinhas… Tipo a pimenta que você colocará no Bloody Mara…
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O namorado harmonizador, não preciso nem dizer, ficou amarradão. Além de curtir a versão original do drinque, o homem é fã do Pará. Só a relação dele com o jambu é que eu achei mais para carioca mesmo. Rolava um fascínio, mas também um certo medinho estrangeiro da tremedeira.

O jambu, como sabemos, é uma erva típica do norte do Brasil que produz uma combinação muito interessante entre paladar e tato. Além de um sabor todo especial, a erva tem a peculiar propriedade de provocar um pequeno tremor nos lábios da gente. Uma leve dormência. E não é que a mistura do jambu com os jalapeños deu numa pororoca curiosa? Segundo minhas cobaias (eu, claro, estou de acordo), a combinação potencializou a tremedeira.

Mas vamos ao ponto. Para o Bloody Mara, além da cachaça e dos jalapeños, usei limão siciliano, suco de tomate, molho inglês, sal e pimenta do reino. E, claro, gelo. Não esqueçam deste item importantíssimo. Eu esqueci e já viu, meu assistente harmonizador teve que correr atrás em busca do pequeno detalhe. O que não seria nada demais, não fosse o fato de que estávamos dessa vez em viagem na Serra e arrumar gelo em um mínimo povoado de pegada super rural não foi tarefa das mais triviais. Drinques com emoção. Sugiro evitar.

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Bom, aparelhagem reunida, vamos à festa. O primeiro item é o suco de limão siciliano, uma dose pequena, 10ml. Depois, o equivalente a um copo de suco de tomate. Em seguida, os jalapeños, uma colher de sopa de molho inglês, a cachaça, sal e pimenta do reino para finalizar. Eu cortei os jalapeños em rodelas de espessura média. Os fracos para pimenta não precisam se assustar, o jalapeño não exige tanto. Ainda assim, se você faz o tipo prudente, é só tirar as sementes. A quantidade de cachaça? Eu usei uma dose. Mas o Bloody Mara tem um quê de jazz. Pede improviso. Feeling.

Ingredientes todos adicionados, agora é dar uma “Machida”, à Lyoto, para misturar bem. Para finalizar, só acrescentar uma dose generosa – vai no olho mesmo, não precisa “ver-o-peso” – de gelo e “tacacar” um talo do aipo para enfeitar. Prontíssimo. Eis um bom drinque para começar a noite ou para inaugurar uma refeição, numa pegada aperitivo.

Gostou da receita? Então, “façaí” e lide com o treme.

Crédito das fotos: Luciana Martinez