Olá, caro leitor! Ufa, conseguimos! Emplacamos a segunda edição da Revista da Junta Local, uma grande vitória para nossa pequena porém intrépida equipe de comunicação. Dessa fornada sairão apenas três artigos (esse número crescerá!), mas trata-se de uma conquista para uma equipe composta por autores, colaboradores, designers, revisores e editores com dedicação longe de exclusiva e quase zero experiência profissional no ramo da publicação. Aos poucos vamos aprendendo com o desafio de coordenar pautas, colaboradores e todo processo editorial. Quem é pequeno precisa se virar: todos da Revista também exercemos outras funções na Junta Local ou fora dela. Compensamos a falta de experiência com muita colaboração e confiança no propósito, não diferente dos pequenos produtores que fazem parte da nossa plataforma. Eles precisam se preocupar não apenas com a produção propriamente dita, mas também com a logística, a administração de pedidos, a comunicação com clientes, a pesquisa, a venda nas plataformas…

Certamente, sabemos que isso é necessário para não perder “a mão”. Fazer “comida de verdade”, na nossa concepção, requer que “gente de verdade” esteja sempre à frente desse processo. Criar um sistema alimentar alternativo que contemple isso é a paixão que move a Junta Local, assim como seus produtores. Mas na prática essa paixão precisa se sustentar na realidade: contas a pagar, administração de pequenos negócios e assim em diante. A resposta quase automática a esse impasse costuma ser: é preciso crescer, vender mais, expandir a equipe, se especializar.

Será que é isso mesmo? Vejamos o que aconteceu quando o sistema alimentar pensou assim.

Como sabemos, a Revolução Verde no campo e a industrialização do complexo alimentar, os dois pilares que moldam a forma como comemos hoje, surgiram como resposta à questão de como alimentar uma população global na casa dos bilhões. Era preciso produzir mais, era preciso crescer. As lavouras se alastraram, famílias e pequenas empresas e negócios foram substituídos por corporações nessa empreitada. Funcionou? A fome continua na mesa e, além disso, agora lidamos com a obesidade e outras doenças crônicas relacionadas à alimentação, sem falar na perda em termos de diversidade e sabor. Mas as grandes corporações estão com a saúde em dia e continuam com o apetite aberto.

Queremos continuar seguindo o mesmo caminho?

A redação deste Megafone tem como pano de fundo a aquisição da rede Whole Foods pela Amazon. A operação reflete o valor atribuído pelo mercado a produtos que podem receber o selo de orgânico, gourmet, e até mesmo local. O público tem essa “fome” e o mercado se presta para saciá-lo. Se a lógica da Amazon se confirmar, essa fome poderá ser saciada a qualquer hora e seus ingredientes orgânicos, “locais” e saudáveis poderão ser entregues na porta da sua casa por um preço baixo. Basta clicar.

Aqui, do alto da nossa insignificância e do isolamento da nossa bolha, nos permitiremos ficar com uma pulga atrás da orelha. Ainda que grandes empresas possam ter uma função importante na satisfação da demanda por bons produtos, o que será sacrificado nesse caminho?

Tal dilema está posto no cerne da própria Junta Local e de seus produtores, que no momento vive as “dores” do crescimento e busca respostas próprias. Nosso Grupo de Trabalho de Ética (GT-Ética) no momento colhe relatos e subsídios dos produtores ajuntados para a elaboração da nossa Carta de Princípios e Valores Éticos em que a questão certamente será tratada. Queremos crescer, mas certamente queremos nos manter pequenos e humanos.

Os artigos desta edição também trazem alguns retratos disso.

A proposta da Sacola Virtual segue uma fórmula econômica bem simples que tende à felicidade geral. Oferecemos uma plataforma de baixo custo com o intuito de incentivar a sustentabilidade de produtores de comida de verdade. Produtores ficam felizes porque recebem margens muito superiores a pontos de varejo tradicionais. Assim eles produzem o que querem e consolidam laços com quem compra. Produtores felizes = comida melhor. Compradores ficam felizes porque obtêm acesso à boa comida por um preço mais justo. Com o tempo, essa plataforma se multiplica em vários pontos onde pequenos produtores escoam suas produções. Produtores podem a longo prazo contar com uma alternativa viável ao sistema alimentar tradicional. Atinge-se um ponto de equilíbrio entre um tamanho de produção que não fere nada do ponto de vista ético e ambiental e sustentabilidade econômica.

Mas aí lá vem a maldita realidade. A Sacola não é para iniciantes, como indica o diário de Catarina Borba da Blin, produtora da Junta Local e também a coordenadora desta plataforma. A rotina da Sacola, apesar de proporcionar o prazer do encontro com outros produtores e compradores da Junta Local, não é fácil.

Para os produtores que visam o crescimento, a velocidade das contas a vencer é maior que a expansão da demanda criada pela plataforma. Para onde crescerão? Que dilemas terão que enfrentar? Do que abdicarão?

O artigo de Marcela Correia, da equipe editorial e também produtora ajuntada do K. Probióticos, sobre a Quetzal é certamente doce, como não poderia deixar de ser um artigo sobre chocolate. Mas também retrata os dilemas de Emerson Gama, que começou da forma mais artesanal possível, produzindo com um pequeno mélangeur com capacidade de 5kg, para uma máquina que processa 100kg. Por um lado, a Quetzal adquiriu a capacidade de alcançar um público maior com seu produto de altíssima qualidade. Quais foram as dificuldades nesse processo? É preciso abrir mão de algo?

Buscamos ainda a melhor forma de lidar com esses dilemas.

As feiras da Junta Local crescem também. Além do Circuito Junta Local, temos a feira em parceria com o Chega Junto, que no dia 24 de junho comemorou o Dia Mundial do Refugiado com feira própria. A parceria e a união de propósitos é certamente uma resposta.

Neste mês teremos nossa primeira feira na Barra da Tijuca e assim cresceremos para o oeste. Sentíamos um arraste para essa direção, mas esperamos o momento certo, pois esse crescimento não poderia se dar fora daquilo que acreditamos. Ainda que shoppings e afins sejam a realidade do bairro, não é a cidade utópica que vislumbramos. O convite feito pela Cidade das Artes nos pareceu certo. Apesar de ser um marco arquitetônico que, como tantos outros nesse passado recente, nasceu sob a mácula da pior espécie de política, este fenomenal equipamento cultural e urbano está em via de ressignificação e reafirmação de sua vocação pública, e nisso queremos contribuir.

São muitas as questões do crescimento, a ponto de querermos às vezes nos esquecer dela, se deleitar em substâncias que levem à distração.

Portanto, vem a calhar o artigo final da Revista, de Guilherme Mattoso, sobre a polêmica Lei da Cachaça. À primeira vista, criar reservas de mercado para proteger “pequenos”, como aparenta ser o intuito da lei, pode parecer pertinente. No entanto, esse tipo de crescimento forçado pode sair pela culatra. É preciso dosar o crescimento.

Boa leitura!

Crédito da foto: Samuel Antonini